A Nintendo DS possui, muito provavelmente, um dos melhores line-ups de sempre no que a RPGs diz respeito. Dragon Quest, Suikoden, Xenosaga, Tales of, Ys, , enfim, praticamente todas as grandes franchises do género e mais uma miríade de títulos menos conhecidos mas igualmente bons passaram, com bastante sucesso, pela DS. A série Final Fantasy não podia ser excepção, havendo várias opções disponíveis na portátil. Final Fantasy III, remake da terceira incursão da franchise na NES, é apenas mais uma das apostas da Square-Enix. A intenção da companhia nipónica era dar a conhecer à comunidade um dos seus títulos menos conhecidos e o único FF que ainda não saíra no Ocidente. Mas como se costuma dizer, ,de boas intenções está o Inferno cheio… terá esta fantasia conseguido voar até ao Paraíso dos clássicos videojogáveis?
Luneth, rapaz órfão, descobre numa recém-aparecida cave um cristal com propriedades mágicas, que lhe atribui uma missão de máxima import¢ncia: salvar o Mundo, restaurando o delicado balanço entre Luz e Trevas com o poder dos restantes cristais mágicos. Como o jovem rapaz seria incapaz de derrotar as hordes de inimigos sozinho, a ele juntam-se três companheiros: Ingus, Refia e Arc. Eventualmente os protagonistas ficam cientes da existência de Xande, vilão que está a empreender todos os seus recursos para mergulhar a realidade nas trevas e no caos, e decidem pará-lo custe o que custar. De facto, estamos perante um enredo muito mais elementar do que é apanágio em Final Fantasy, mas esta versão DS foi reescrita para dar maior profundidade às personagens (que nem sequer tinham nome ou passado no original NES) e eventos narrados, dado que a versão de 1990 era mais simples. O foco neste jogo não é a grande perspectiva da história, mas antes os acontecimentos passados em cada localidade. Este tipo de mec¢nica permite um fácil acompanhamento do desenrolar dos eventos por parte de jogadores mais casuais e/ou distraídos, que assim nunca ,perdem o fio à meada, mas dificulta consideravelmente uma ligação mais séria às personagens e seus problemas (que não são por si só interessantes).
Talvez para compensar este aspecto, a Square-Enix esforça-se claramente por apresentar uma experiência semelhante aos jogos mais recentes da série, apostando numa produção técnica de grande qualidade. O grafismo é em 3D, algo raro na consola em questão. Os cenários são belos, variados e dão um excelente uso à cor, destacando-se o facto de todos eles estarem recriados em três dimensões (o que só aconteceu outra vez na série, em FFXII). Os modelos das personagens e as animações durante os combates estão muito bem conseguidas, com alguns detalhes louváveis. As FMVs presentes no jogo têm qualidade praticamente idêntica às das incursões PS2, apenas pecando pela sua escassez em quantidade. A banda-sonora e restantes componentes de som são irrepreensíveis, com alguns temas clássicos da série a marcarem presença. A atenção ao detalhe já é uma marca habitual nos produtos da Square-Enix, que raramente nos desiludem.
Infelizmente, há aspectos que não envelheceram bem e que fazem estalar a tinta sob esta ,pintura fresca. Os combates são aleatórios, por turnos, o que pode constituir um defeito para alguns – e têm tudo aquilo que os fãs tanto gostam: magia, summons (na verdade o original NES foi o primeiro jogo da série a incluir as criaturas invocáveis), ataques especiais, inimigos com espadas desproporcionais, monstros de fogo… O problema aqui prende-se com a dificuldade por vezes ,surpreendente dos combates. Só para dar um exemplo, aconteceu-me estar a vaguear no mapa, defrontar uma série de inimigos fáceis e acidentalmente entrar numa área contígua na qual sou derrotado com um simples golpe. Também é cenário comum um combate correr bem até ao momento em que um opositor usa várias vezes consecutivas o seu ataque mais devastador. Esta questão era compreensível num RPG há 18 anos, mas actualmente duvido que seja este o conceito mais aceite de ,diversão. É igualmente inexplicável a falta de save-points dentro das dungeons. Torna-se frustrante ter de repetir diálogos inteiros e derrotar os mesmos inimigos de novo só porque se é derrotado por um qualquer adversário ou boss. A outra falha de relevo não tem a ver directamente com a idade do jogo, mas sim com a falta de imaginação da equipa técnica. Durante mais de metade da aventura só o ecrã inferior é utilizado, ficando o de cima reservado a um mapa ou pura e simplesmente ,em preto, o que é uma pena.
Tudo o resto, no entanto, encontra-se eximiamente executado. O sistema de profissões (Job system) funciona muito bem, permitindo a total personalização da nossa equipa sem cair nos exageros de outros RPGs, o sistema de magias é simples e acessível, os combates, quando não decidem tornar-se subitamente frustrantes, são divertidos, o mundo é muito vasto (podendo ser cruzado com o auxílio de vários meios de transporte) e está recheado de suficientes side-quests para nos mantermos agarrados à consola durante um bom período de tempo. E por falar em longevidade, é preciso realçar as mais de três dezenas de horas necessárias para completar a missão principal, algo cada vez mais raro nesta era dos jogos que se acabam em 8 horas.
Final Fantasy III é um bom jogo com potencial para ser muito mais. Os seus gráficos e sonoplastia são dos melhores que a Nintendo DS já viu, mas o enredo esquecível e ultrapassado e alguns traços do jogo original impedem-no de almejar um patamar de qualidade de fazer justiça à primorosa componente técnica. Face à forte concorrência dos restantes RPGs na consola, não consegue apresentar um número considerável de argumentos para se destacar. É apenas mais uma opção a ter em conta para os fãs do género.



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