A tecnologia evoluiu: as melhorias gráficas e sonoras, os novos suportes físicos e um aumento progressivo do número de botões num comando de consola, juntamente com muita imaginação, contribuíram para o aperfeiçoamento das experiências com jogos de vídeo. Os saudosistas queixam-se, no entanto, do abandono das fórmulas simples e divertidas. Muitos reclamam ainda a falta de verdadeiros desafios. Em 1987 a Capcom deu a conhecer o seu herói de blindagem azul, que não apenas se tornou numa mascote da companhia como também deu azo a inúmeras sequelas e spin-offs. Com o nono título da série principal em vésperas de estreia no WiiWare, voltamos atrás no tempo e analisamos a aventura original, que se estreou na NES e que pode ser trocada por 500 Wii Points, no serviço retro da Nintendo Wii. Apesar de se encontrar bem mais barato do que na época em que saiu, será que a aventura mantém o seu charme, apesar do hiato temporal entre os dois ,lançamentos?
A história é cliché, mas em 1987 escasseavam os jogos com argumentos elaborados e originais. E nem se exigia uma boa narrativa para desfrutar de um título como este. Há que salvar o mundo de um megalómano, definitivamente. Um inventor criou seis robots-mestre para fins industriais (Iceman, Fireman, Elecman, Bombman, Gutsman e Cutman), que são posteriormente furtados por Dr. Wily, o vilão da história. Com o intuito de dominar o mundo, desvia-os dos seus propósitos originais, reprogramando-os para que executem o seu hediondo plano. Dr. Light, horrorizado com o caos originado pelas suas criações, vê um dos robots domésticos a voluntaria-se para travar os planos de Dr. Wily. Light transforma-o então em Mega Man, para que este derrote os robots corrompidos e ponha termo ao plano de Wily.
O design dos níveis em Mega Man inspira-se em tradicionais jogos de plataformas. No entanto, desenganem-se os leitores que nunca experimentaram um título da série: estamos perante um jogo de acção, onde os inimigos se eliminam à base de armas (esqueçam os saltos mortíferos, ao estilo de Super Mario). Rock (o nosso robótico herói) está equipado com um braço em forma de canhão, para atacar à dist¢ncia. Ao contrário do que sucede em futuras sequelas, não consegue acumular energia para disparos mais potentes. Também é incapaz de disparar em várias direcções (Dr. Light bem podia ter pensado nisso, já que disparar para cima e nas diagonais facilitaria imenso a tarefa) e não possui mais movimentos, para além do salto e da capacidade de subir escadas. Estas limitações, aliadas à arquitectura dos níveis, que conseguem ser impiedosos, muitas vezes, ao exigirem saltos milimetricamente calculados, ao apresentarem zonas de picos, que provocam a morte instant¢nea e ao posicionarem artilharia hostil em locais mais recessos, acabam por aumentar os níveis de concentração de frustração nos dedos e o número de comandos que não subsistem a algumas tentativas de sucesso, principalmente contra alguns chefes de nível. Para complicar ainda mais, as dezenas de inimigos aniquilados teimam em reaparecer sempre que retrocedemos no ecrã de jogo.
Mega Man foi inovador na forma como permitia ao jogador planear a sua aventura, ao disponibilizar, desde o início, seis distintas zonas, cujos caminhos levam ao confronto com os respectivos chefes de nível. É possível iniciar a aventura pela captura e derrota de Ice Man, por exemplo. Seguir um critério para a selecção do próximo nível pode bem ser a chave para o sucesso já que, ao ser vulnerável a um determinado elemento, cada boss pode ser derrotado mais facilmente, caso se siga uma estratégia. Cada vez que um perece, Mega Man absorve a sua habilidade. Imaginem o efeito que o poder de fogo pode ter no robot que controla o gelo, uma vez adquirido. Recolhidas as habilidades dos seis robots, o repto torna-se mais difícil e linear, através da exploração do castelo de Wily, até ao derradeiro confronto.
Tendo em conta a plataforma para o qual foi desenvolvido, a qualidade gráfica é acima da média. Os cenários são um pouco despidos de detalhes e o aumento de inimigos no ecrã corresponde ao decréscimo de velocidade e suavidade na acção, fruto das limitações técnicas da NES. Ainda assim, as animações bruscas e os pixéis a mais conferem algum charme ao jogo. O modelo de Mega Man foi particularmente trabalhado e com sucesso, ao ponto de o terem aproveitado o para a sequela. No geral teve bom aspecto, para o seu tempo, apesar de não sobreviver aos padrões de qualidade actuais. É uma questão de perspectiva, no entanto, não fosse o iminente nono capítulo da série enveredar pelo mesmo estilo retro, nos dias que correm. Algumas das músicas do jogo são um pouco repetitivas. Seja por esse motivo ou pelo seu inegável encanto, ficam facilmente retidas no ouvido.
Existem episódios da saga bem mais longos e chegar ao primeiro confronto com Dr. Wily pode surpreender pela celeridade do percurso. O maior obstáculo está na excessiva dificuldade do jogo, que retarda o problema da longevidade mas que acaba por criar muitos momentos de irritação, uma eventual ida a uma sessão de ioga, para os mais desesperados, e, sublinho, alguns comandos partidos, muito por culpa da forma como os níveis foram desenhados, como já acusei, mas também pelo desempenho de alguns robots de fim de nível, que podem aniquilar o protagonista em apenas dois ou três golpes. A impossibilidade de seleccionar o nível de dificuldade (algo possível em Mega Man 2) e a escassez de itens de recuperação de vitalidade apenas contribuem para agudizar ainda mais a situação.
Os jogadores mais inexperientes poderão considerar avançar directamente para Mega Man 2, também disponível na Virtual Console pela mesma quantia (500 Wii Points). O segundo jogo é mais longo, acessível e equilibrado que o original. Ainda assim, os fãs da série e os que procuram conhecer alguns dos fundamentos dos jogos de acção clássicos (e até contempor¢neos) devem adquirir este título sem qualquer reserva. Poucos são os jogos que divertem tanto por tão pouco. Mega Man continua actual, como provam vários títulos baseados no herói e que assaltam constantemente o mercado. As limitações da mec¢nica de jogo impedem-no de alcançar uma classificação maior. No entanto, vale bem o investimento e é daqueles jogos que lembram a import¢ncia de um serviço de jogos retro como o da Wii.
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