Mega Man pode até ter defendido o mundo das maquiavélicas intenções de Dr. Wily, ao pôr término às suas acções. No entanto, apesar da sua derrota, o ignóbil cientista retorna com um novo plano e oito robots para o executar. Apenas o herói de blindagem azul poderá enfrentar esta nova ameaça, envolta numa estranha sensação de déjà vu. Embora apresente uma estrutura e mec¢nica idênticas às do primeiro jogo, a sequela recolhe todos os elementos que engrandeceram o original e aprimora-os. Mega Man 2 pode até ser o segundo de vários capítulos, mas é considerado por um grande número de fãs como o zénite da série. Quase duas décadas após o seu lançamento para a NES, será que a estreia na Consola Virtual da Wii contribui para reafirmar uma verdade ou para destruir um mito?
O jogo mantém-se fiel ao seu predecessor: temos acesso a um menu com vários níveis e a ordem de selecção fica à nossa responsabilidade, apesar de alguns cenários exigirem itens previamente recolhidos em outras situações; disparamos sobre vários inimigos enquanto saltamos de plataforma em plataforma, recolhemos recuperadores de energia ou nos socorremos de uma determinada habilidade para transpor um obstáculo; o trajecto leva-nos inevitavelmente ao confronto com um dos robots-mestre do Dr. Wily, cada um detentor de uma aptidão singular e que é utilizada como arma de ataque; derrotamos o boss, assimilamos o seu poder especial e seguimos para outro nível, com outro confronto de robots em mente; após todos terem sido derrotados temos acesso ao lar do ignóbil cientista, mas até ao derradeiro confronto ainda se insurgem no nosso percurso os seus melhores subordinados, para além dos perigos que a própria construção do castelo impõe.
Quem apenas jogou o primeiro Mega Man ou leu a respectiva análise estará provavelmente a questionar-se acerca da aparente carência de inovações desta sequela. No entanto, e como afirmei no inicio, mais do que inovações, este jogo apura quase todos os elementos da primeira aventura. E vai mais longe, ao marcar os passos do herói em episódios futuros, que passaram a adoptar algumas das novidades de Mega Man 2, das quais destaco o sistema de passwords (e que permitia evitar a desconfortável situação de ter de recomeçar desde o início, sempre que se desligava a NES), o aumento de seis para oito robots a defrontar (ampliando ligeiramente a longevidade da aventura e a variedade de armas a utilizar) e a aquisição de novos itens, essenciais para o progresso no jogo (como os E Tanks, os muito úteis recuperadores de energia), ou dispositivos que permitem criar plataformas flutuantes para o acesso a zonas aparentemente inalcançáveis. Estas inclusões permanecem até aos dias de hoje e a prova é que estão contempladas no nono episódio. Algumas das melhores armas, como o Mega Buster, o Atomic Fire ou Metal Blades, foram também forjadas no jogo em análise (muitas foram constantemente revisitadas, noutros episódios, e o Mega Buster tornou-se mesmo parte do equipamento básico do protagonista, do quatro ao oitavo episódio). Lamentavelmente os produtores não aproveitaram uma útil característica que surgiu com este jogo e que jamais se voltou a repetir: a possibilidade de escolha entre dois modos de dificuldade, exclusiva para as versões ocidentais. Apesar do desafio extremo no modo mais difícil, o modo normal permite que qualquer jogador, por muito inexperiente que seja, desfrute plenamente da aventura, com algum treino. Continua desafiante, mas nota-se perfeitamente uma redução na ofensiva e resistência dos inimigos, principalmente no caso dos robots-mestre. Mesmo no modo mais difícil, já não requerem uma estratégia especial para a derrota, na maioria dos casos, já que o Mega Buster resolve quase todos os confrontos em alguns segundos.
Graficamente tudo está mais polido e definido, apesar de a evolução ser discreta. Neste aspecto, as melhorias mais evidentes ficaram para a apresentação: a cena inicial, em que o herói surge no topo de um longo edifício, e a sequência em que visualizamos Dr. Wily a dirigir-se para o seu castelo deixaram os fãs em êxtase, no final da década de oitenta. Mas verdadeiramente impressionante é a panóplia de temas que compõe a banda sonora, de uma qualidade e carisma arrebatadoras, facilmente elegível como uma das melhores colecções de chiptunes alguma vez criada para um videojogo de 8 bits, em plena era dourada deste ,estilo musical.
Com um sistema de jogo aperfeiçoado e enriquecido com algumas novidades, um grande equilíbrio entre plataformas, acção frenética e uma cuidada gestão de recursos, dificilmente largamos a consola enquanto não ajudamos o herói azul a cumprir a sua missão. O novo modo de dificuldade é um autêntico filtro para a frustração sentida no primeiro jogo e o maior foco na apresentação e na variedade de armas e inimigos conseguem manter o entusiasmo até ao final, por mais incómodos que sejam os derradeiros bosses. E os novos robots aumentam a longevidade, que é facilmente duplicada caso se encarem os dois níveis de dificuldade como diferentes desafios. Um verdadeiro hino, ou uma colect¢nea deles, tendo em conta a brilhante banda sonora, aos clássicos jogos de acção, Mega Man 2 é obrigatório em qualquer colecção. A par de Super Mario Bros. 3, dificilmente conseguem gastar 500 Wii Points de forma mais inteligente.
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