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Spore Creatures

Bruno 7 de Novembro de 2008

Spore Creatures

Desde a sua fase embrionária que Spore despertou um forte interesse nas comunidades de jogadores e jornalistas da especialidade. Volvidos vários anos, o mais ambicioso dos projectos de Will Wright vê finalmente a luz do dia. Estando previsto o PC como o seu habitat natural, cedo o pai do projecto pensou em promover a reprodução da espécie. Do casamento de duas marcas carismáticas como ,Spore e ,Nintendo DS nasce um novo rebento, baptizado de Spore Creatures. Mas terá a montanha parido um rato?

A teoria da evolução de Darwin alterou a forma de pensar a vida na Terra. Quer se acredite ou se rejeite a evolução das espécies segundo a sua perspectiva, o seu contributo para a problematização do percurso dos seres vivos na Terra é inegável. Após Will Wright ter proporcionado a experiência virtual de gerir centros urbanos em SimCity e o quotidiano pessoal e social de indivíduos em The Sims, o repto é agora a gestão de todo um percurso de vida, desde a fase embrionária, com poucos recursos para a sobrevivência, até ao pleno desenvolvimento individual e colectivo de um personagem. É este o verdadeiro propósito de Spore. Como era espectável, tendo em conta os recursos da DS, a versão portátil não oferece toda a experiência visual e criativa do irmão mais velho. No entanto, algumas limitações na liberdade das nossas acções são menos compreensíveis. Mas já lá vamos.

A aventura inicia-se em Tapti, um dos planetas da galáxia Spore. Quando conhecemos o nosso personagem este ainda é uma espécie de lesma marinha, prestes a ser vítima de um rapto colectivo. Uma nave espacial de pequeno porte anda a sequestrar os habitantes do planeta e quase sai bem sucedida numa tentativa de levar a nossa criatura e o seu novo amigo, Little Oogie. Após o sobressalto e a fuga para terra (a sua primeira adaptação), forjamos um pacto de protecção e iniciamos uma busca pela forma mais célere de escapar daquela ilha. Sem sorte, no entanto, já que Little Oogie acaba padecendo da insistência do misterioso sequestrador, deixando-nos sem companheiro. Define-se de imediato uma nova prioridade: derrotar a ignóbil criatura que assombrou a pacata vida que levávamos até então e salvar o nosso parceiro de pacto.

Para ser bem sucedido o nosso personagem terá que sobreviver e evoluir. Ou será a ordem inversa? São vários os perigos que espreitam nos diferentes continentes a visitar, desde carnívoros famintos até tipos de solo perigosos. Alguns seres são hostis por razões territoriais, por desconfiança ou conflitos com outros habitantes da região. Quanto mais trabalhadas forem as nossas relações pessoais (e sociais) com determinadas criaturas (e espécies), mais benefícios obtemos para o auxílio na conclusão de algumas missões e nos combates contra inimigos. Fazer (e manter) amigos é essencial para o sucesso da nossa aventura. Mas tão ou mais importante que socializar é evoluir fisiologicamente. Existem dezenas (centenas?) de ,peças, diferentes partes do corpo que estão espalhadas pelo universo do jogo e que teremos que encontrar. Recorrendo a novas pernas, braços, olhos e boca, entre outras, podemos não apenas criar o nosso avatar como também prepará-lo para reagir à súbita (ou prevista) imposição de um obstáculo. As metamorfoses processam-se em ninhos, espalhados pelos diversos territórios, e terão que se tornar acessíveis, seja através de boas relações com os seus donos ou pela sua aniquilação. Aí acedemos ao modo de criação, onde se reúnem todos os membros corporais que recolhemos e onde é possível criar e adaptar o nosso avatar. No ecrã táctil gerimos as ,peças, enquanto no superior, e em tempo real, vislumbramos as alterações efectuadas. Este modo é surpreendentemente robusto, apesar de não oferecer a profundidade e flexibilidade da versão PC. Um dos seus inconvenientes é que em muitas situações somos obrigados a colocar não as partes do corpo que desejamos mas as que a situação obriga, não existindo qualquer variedade a nível estético. Quando um manto de lava nos separa de um determinado objectivo é imperativo encontrar umas pernas específicas para que seja possível a passagem. No entanto, esses membros têm um aspecto único, que irá provavelmente destoar da personagem que tínhamos em mente. Seria interessante se o jogador pudesse alterar as partes do corpo e não apenas aglomerá-las. Outro entrave ao processo criativo reside nas características singulares que cada peça possui, para além de um custo. Como a tendência evolucionista do jogo obriga ao aperfeiçoamento físico do personagem, a maioria dos jogadores acaba por arquitectar um personagem não com base no aspecto mas tendo em conta os melhores braços, os melhores olhos, a melhor boca, etc. Logo, não estranhem se a maioria das criaturas se assemelharem entre jogadores, numa fase comum da aventura.

Aventura esta que se divide em seis fases, distribuídas pelo mesmo número de planetas. Como a leitura até agora já indiciou, há uma forte componente RPG em Spore Creatures, devido à constante gestão de partes do corpo com diferentes atributos a elas associados. Não falta uma barra de saúde e outra com a componente mais próxima da tradicional magia (que aqui possibilita habilidades como cura individual e colectiva, entre outras) e um sistema que permite subir de nível. Infelizmente, e apesar da introdução destas características, a acção é demasiado linear. Existem certamente missões secundárias aliciantes e variadas, mas os objectivos são demasiado simples e claros. Tudo neste jogo está muito bem traçado e explicado (com excepção para a falta de informações sobre ,peças no editor de criaturas). Adaptar-se a uma região e conseguir uma parte de nave espacial repete-se durante toda a aventura, apesar da relativa variedade das situações secundárias. E quase toda a acção se controla via ecrã táctil, apesar de se poder recorrer aos botões da DS. No entanto, nenhuma das opções satisfaz plenamente, já que alguns problemas de c¢mara insistem em aparecer. Com o estilete podemos passear a nossa criatura pelos diferentes planetas, colher fruta do chão (após provocar a sua queda das árvores), arremessar comida a aliados ou pedras contra locais susceptíveis a fracturas e combater inimigos. Dominar a acção de deslizar com vigor o estilete sobre o adversário é o grande requisito para sobreviver a um combate. Esta fórmula repete-se desde o primeiro ao último, infelizmente. O que torna os confrontos ligeiramente mais complexos é a necessidade de gerir a força, a defesa, a saúde (e a sua recuperação) e a possibilidade de causar dano extra.

Apesar da linearidade geral, somos algumas vezes confrontados com interessantes dilemas morais, como ter que optar por matar uma criatura para salvar outra ou passar ao lado do acontecimento, para não criar inimizades com a sua tribo. Outras opções importantes terão que ser tomadas, mas regra geral estas situações apenas condicionam o sucesso de algumas missões secundárias, que dependem da nossa boa ou má conduta, conforme o ponto de vista. Amizades de conveniência são em Spore Creature tão essenciais como no mundo que existe para além do jogo, por razões acima esclarecidas. Curiosas são as formas que temos para tentar seduzir os habitantes de cada região: podemos acariciá-los, aumentando o nível de proximidade da relação até atingir o ponto ideal, e/ou bailar em parceria, num elementar minijogo de ritmo a lembrar, ainda que vagamente, Elite Beat Agents. Apesar da sua simplicidade, à medida que progredimos no jogo o desafio aumenta (experimentem exibir os vossos dotes rítmicos diante do derradeiro inimigo). Algumas das músicas estão bem conseguidas, mas dificilmente as recordamos depois de desligada a consola. Exigia-se um pouco mais de criatividade neste campo, como a composição dos temas com base nos sons característicos de cada um dos animais envolvidos, já que este tipo de ritual costuma, em ambientes de vida animal, mesclar mais sentidos para além do visual.

Após alguns altos e baixos (e o momento mais deprimente vai para um minijogo em que temos que afastar ladrões de fruta) cumprimos o nosso objectivo. A boa notícia é que podemos revisitar os planetas previamente explorados através de uma nova opção, não apenas para contemplar criaturas que parecem recortadas de papel (e a inserção em ambientes 3D funciona, tal como em Super Paper Mario) como também para desbloquear emblemas e outras marcas que assinalam as nossas façanhas. Este sistema de recompensas, que lembra os achievements do Xbox Live Arcade, prolonga a vida do jogo, renovando o interesse de uns e apelando à veia coleccionista de outros. Existe ainda a possibilidade de enviar criaturas via Nintendo Wi-Fi Connection a amigos ou desconhecidos, mas o impacto na jogabilidade é quase nulo, já que, para além do voyeurismo despertado pelas criações alheias, apenas podemos importá-las para a nossa galáxia. Não existe qualquer interacção entre dois jogadores e essa vertente poderia ter sido explorada. Animal Crossing: Wild World tem bastante mais tempo no mercado e oferece esse tipo de experiência.

Spore Creatures assenta em ideias relativamente inovadoras e ambiciosas, mas o estádio em que se encontra não lhe permite liderar um género tão concorrido (e com tanta oferta de qualidade) como o das aventuras de acção. No entanto, correm-lhe no sangue bons genes e tem por isso potencialidades para se desenvolver significativamente. Uma sequela que fomente a interacção online entre criaturas, que as dote de uma maior liberdade e que desenvolva os rituais de sedução poderá resultar num importante salto evolutivo. Continua digno de acompanhamento por parte de quem o pretendia adoptar, mas não esperem encontrar aqui a redefinição de uma forma de jogar ou a experiência mais refrescante dos últimos tempos. Para isso poderão tentar abordar o irmão mais velho ou aguardar por pormenores da versão Wii.

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