Longe vai o tempo em que o 2D dominava consolas e PCs. Os anos 90 foram marcados pelo lançamento de uma série de títulos que mudaram essa realidade. Em particular no ano de 1996, o lançamento de Quake, Super Mario 64 e Tomb Raider (TR), traria ao mundo a ideia de que o futuro dos videos jogos estaria na exploração do 3D para criação de experiências mais envolventes e ambientes mais realistas. Após lançamento de Tomb Raider, Lara Croft rapidamente se tornou em obsessão mundial, o que eventualmente levou à criação de 2 filmes e 6 sequelas do título original, tudo em apenas uma década.
Para festejar 10 anos de existência, a editora Eidos Interactive lança Tomb Raider Anniversary (TRA), um remake da aventura original. Terá este lançamento algo de novo ou será que nos fará sentir como se ainda estivessemos em 1996?
As 6 primeiras sequelas foram produzidas pelo grupo Core Design, não oferecendo muitas novidades e abusando de uma fórmula que embora de sucesso ao início, depressa se tornou ultrapassada. Para a 6¬ê sequela, de nome TR: Legend, a produção esteve a cabo da Crystal Dynamics. Legend apresentou-se como uma luz ao fundo do túnel para Lara Croft, introduzindo várias novidades a nível gráfico e na liberdade de acção da personagem principal.
Tomb Raider: Anniversary (TRA) tenta fazer a convergência entre o que há de novo e de velho no universo de Tomb Raider. É de facto um remake do jogo original mas introduz várias novidades, não só por ser implementado sobre o motor de jogo da Crystal Dynamics mas também porque apresenta elementos exclusivos na Wii (comparativamente às outras plataformas PC, PSP, PS2 e Xbox360). Este título podia ter seguido dois caminhos no que toca a recriação da aventura original; um caminho seguiria o mesmo tipo de ideias que já vimos executadas antes de Legend; um outro que seria marcado pelo retorno de uma aventura virada para a exploração. De facto, TRA segue o segundo caminho e é o mais puro e fiel lançamento até à data no que toca às ideias estabelecidas em 1996. Lara está de volta numa aventura com carácter mais introvertido na qual as cenas de acção e confronto que tanto marcaram os lançamentos na última década ficam de fora. Verdade seja dita, o jogo original debatia-se mais com o isolamento de Lara, resultante da sua obsessão por exploração, do que com cenas de acção e ,cowboiada que marcaram os restantes.
No passado, os movimentos de Lara eram demasiado mecanizados e embora inovadores para a altura, depressa aprendíamos que bastava contar o número de passos necessários para realizar todo o tipo de acções. Os saltos, que eram sem dúvida o movimento mais executado, tinham um único e frustrante desafio que passava por apontar em perfeição para a plataforma para não deixar cair Lara e ter de voltar a percorrer todo o caminho desde o último save point. Os anos passaram e nada se alterou. Uma das melhorias em Legend e Anniversary passa por uma maior liberdade, devolvendo a Tomb Raider o prazer de controlar Lara que tanto marcou o primeiro jogo. Passou a ser possível fazer saltos na diagonal, escalar paredes, fazer equilíbrio em troncos, usar lanternas nas zonas mais escuras, balançar em cordas, empurrar e puxar objectos em qualquer direcção e usar um arpão para diversas acções. Até o auto-aim desapareceu, dando origem a um sistema de pontaria livre. Esta é uma das vantagens de jogar Anniversary na Wii, já que o Wii-remote permite explorar ao máximo o par de pistolas de Lara.
O sistema original de save points não foi bem recebido porque, regra geral, eram poucos e não ofereciam muita liberdade de escolha ao jogador. Desta vez podemos contar com save points automáticos, espalhados pelos cenários. Sempre que Lara passa por um, o jogo é salvo nesse ponto mas em formato temporário. Cabe ao jogador decidir que save point prefere usar, usando a opção de save que memoriza o último save point temporário como permanente. É um sistema simples mas que funciona sem problemas.
No entanto nem tudo são melhorias. A série sempre esteve recheada de pequenos problemas, ou pondo de outra forma, bugs. Anniversary não sofre de todos os bugs que insistentemente apareciam nos jogos anteriores mas alguns persistem, sendo os mais frustrantes: inimigos presos no cenário ou simplesmente imobilizados, a c¢mara mudar insistentemente de direcção ou centrar em objectos principalmente durante o combate e o facto de Lara ter por vezes dificuldade em agarrar-se às arestas quando tudo indicava que o ia fazer. E por mencionar a c¢mara… parece impossível que 10 anos de TR não sejam suficientes para desenvolver um modelo adequado ao estilo do jogo, mas infelizmente é verdade. Outro problema que parece ter resistido a 10 anos de avanços tecnológicos é a falta de inteligência dos inimigos que Lara encontra. Serão facilmente derrotados se o jogador se dedicar a descobrir alguma falha, se explorar o facto de que não trepam quaisquer objectos ou simplesmente porque bloqueiam em algum canto do cenário.
Deve notar-se que os problemas aqui referidos são comuns a todas as plataformas. De facto os problemas da c¢mara são suavizados no que toca à versão Wii. Isto porque nesta plataforma é possível rodar a mesma, mover Lara e fazer mira ao mesmo tempo. Tudo graças ao mapeamento destas 3 acções no Nunchuck. O movimento é controlado pelo stick analógico, os movimentos da c¢mara e da mira são controlados pela posição do apontador mas só quando o botão C e/ou D estão accionados (respectivamente). Em combate, a melhor estratégia para evitar que o ecrã ganhe vida própria é accionar C e D ao mesmo tempo, sendo que a vista passará a rodar à volta do alvo para o qual Lara aponta as suas pistolas. O apontador serve também como mira para o arpão, sendo possível direccionar e atirar o mesmo com precisão (movendo o Nunchuck rapidamente para a frente ao estilo Metroid Prime 3).
Os tempos de loading são reduzidos quando comparados com outros jogos do mesmo género, embora existam algumas pausas desnecessárias entre menus (que curiosamente apresentam uma simplicidade gráfica que sempre foi característica de TR).
A nível gráfico Anniversary não é dos melhores títulos para a Wii. No entanto, Lara explora um conjunto de locais cujo design está acima da média. Alguns são repletos de edifícios de arquitectura imponente, com lagos e correntes de água cujo efeito no cenário circundante é surpreendente. Efeitos de partículas e luz em tempo real ajudam a criar um ambiente convincente, sendo a banda sonora a cereja no topo do bolo. Infelizmente os efeitos sonoros não seguem o mesmo caminho positivo e facilmente notamos que a experiência seria diferente caso fossem enquadrados mais efeitos, principalmente em locais abertos.
Quem jogou TR em 1996 com certeza se lembrará quão fascinante era começar um novo capítulo da aventura com um pequeno cut scene de carácter cinemático cuja qualidade para a altura era imbatível. Desde então esse tipo de cenas passaram de uma boa ideia a regra universal. Anniversary não seria um remake à altura se não apostasse nesse sentido. A qualidade gráfica dos cut scenes neste lançamento não está à altura do que se vê noutros títulos recentes (como Prince of Persia). Algumas cenas são agora din¢micas e os movimentos de Lara foram mapeados ao Wii-remote e Nunchuck, obrigando o jogador a prestar atenção aos diálogos e acontecimentos imprevistos. A ideia não é nova e pouco é adicionado à experiência. A Crystal Dynamics parece ter apostado mais no desenvolvimento do argumento do que nos pormenores tecnológicos. Esta opção, embora susceptível a alguma critica, tem resultados positivos. Com o desenvolvimento do argumento não só ficamos a conhecer alguns factos essenciais que não tinham sido contados no título original, como também somos presenteados com algumas características mais humanas de Lara que nunca tinham sido exploradas. Ao jogar Anniversary até ao fim passamos a ver a heroína de outra forma, porque afinal de contas Lara Croft não é apenas um corpo jeitoso e um par de… pistolas.
A versão Wii é um port da versão previamente publicada na PS2. Não só mantém todas as suas novidades como também acrescenta alguns pontos no que diz respeito à exploração de puzzles. Alguns destes são resolvidos através do uso do Wii-remote em que o apontador simula a mão de Lara. Não podemos deixar de comentar que, para além da c¢mara, da mira e do arpão, todos os outros mapeamentos de motion control neste jogo não passam de tentativas demasiado simplificadas de dar uso a um mecanismo bastante mais poderoso.
Os criadores parecem ter dado um passo no sentido correcto não só em Legend como também em Anniversary. Os fãs de Lara Croft que esperam por uma nova aventura (prometida para 2008) podem agora começar a sonhar com um possível salto em vez de apenas um único passo na direcção correcta.
Os problemas aqui apontados são argumentos válidos para algum criticismo e embora nos façam ficar reticentes, a verdade é que não arruínam a experiência. TR Anniversary apresenta-se como uma aventura clássica recheada de ambientes envolventes, com uma história relativamente interessante e acima de tudo fiel a Lara Croft. Explorar grutas e ruínas, exumar corpos de indivíduos envoltos em mistério e pôr o corpo de Lara em constante perigo sabe tão bem como soube em 1996.
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