2008 foi um ano fulcral para a Nintendo. Embora a pequena DS já tivesse provado o seu valor, apresentando três anos de vendas extraordinárias em que sucessivos recordes da indústria foram demolidos, chegara a vez da Wii demonstrar que era mais do que uma moda passageira e firmar-se como o fenómeno da geração. E agora que o ano finda, é possível afirmar que a Wii passou plenamente este teste: com vendas estimadas em 45 milhões de unidades, a consola caseira da Nintendo ultrapassou os já por si surpreendentes valores de 2007, continuando a vender a um ritmo superior ao de qualquer outra consola até ao dia de hoje. Mas a DS não foi, de forma alguma, esquecida pelos jogadores: embora as consolas normalmente atinjam as vendas mais elevadas no terceiro ano de vida, a portátil registou novo máximo histórico em 2008, contrariando as previsões dos analistas. A pergunta que surge é, naturalmente, o que aconteceu para justificar tamanho sucesso?
Em parte, o sucesso das consolas da Nintendo deve-se a títulos lançados em anos anteriores. Wii Sports, Wii Play, Super Mario Galaxy, Nintendogs, Pokémon Diamond e Pearl, New Super Mario Bros, Brain Training, entre muitos outros produtos de alcance universal, continuam a marcar presença assídua no tops de vendas mundiais, não obstante terem saído há mais de um ano (e, em alguns casos, há dois, três anos). Até muito recentemente, o sucesso de um jogo podia ser determinado com base nas suas primeiras semanas de vendas. Com a Wii e DS, e embora ainda alguns erradamente o façam, isso não é exequível: sucesso a médio-longo prazo é a expressão que se impõe. Em vez de terem uma semana de estreia fulminante e decaírem rapidamente nas tabelas de vendas, os jogos para as consolas Nintendo estreiam medianamente bem mas mantêm-se assim durante um longo período. E este padrão continuou a verificar-se ao longo de todo o ano de 2008.

Com a DS em modo piloto automático, a Nintendo decidiu, no início do ano, virar as suas atenções quase totalmente para a Wii, lançando apenas Advance Wars: Days of Ruin e deixando a portátil ao bom cuidado das empresas third-party. Apostada em manter o ímpeto de sucesso até então alcançado, a Nintendo lançou três dos maiores títulos desta geração no mesmo trimestre: em Abril, o acessório Balance Board estreou-se com Wii Fit e Mario voltou às pistas de kart com Mario Kart Wii; em Junho, as personagens mais memoráveis da Nintendo juntaram-se a Solid Snake e Sonic the Hedgehog em Super Smash Bros. Brawl. Os fãs casuais rejubilaram com a oportunidade de se exercitarem em casa; os jogadores mais hardcore desfrutaram imensamente do confronto tit¢nico entre as mascotes da Nintendo; e todos juntaram-se em redor da Wii para mais uma corrida de karts. A crítica, no geral, acolheu bem os três produtos. Resultado? Segundo números oficiais da Nintendo, em Setembro tinham-se vendido mais de 7,47 milhões de exemplares de Super Smash Bros. Brawl, 8,76 milhões de Wii Fit e 9,53 milhões de cópias de Mario Kart Wii, imediatamente colocando os três títulos entre os mais vendidos da geração.
O online passou a ser uma preocupação activa nas mentes da Nintendo. Mario Kart Wii e Super Smash Bros. Brawl apresentaram modalidades online que, embora criticadas devido a várias limitações, constituíram passos na direcção certa. Em Maio, a companhia abriu um novo espaço dentro da Wii Shop Channel. Para além da Virtual Console (que, ao longo do ano, recebeu jogos como Super Mario RPG, Phantasy Star III e IV, Earthworm Jim, Ys Book I & II, Metal Slug, Secret of Mana e Kirby 64), a Wii passava agora a contar com o serviço WiiWare, onde qualquer produtor, mesmo independente, podia lançar o resultado dos seus esforços. Com menos de um ano de vida, o WiiWare já recebeu apostas de qualidade como LostWinds, os episódios Strong BadÚÄôs Cool Game for Attractive People, Final Fantasy Crystal Chronicles: My Life as a King, Mega Man 9, a linha Art Style e o extraordinário World of Goo. Resta saber se a qualidade se manterá elevada durante 2009…
Quanto às empresas externas à Nintendo, estas pura e simplesmente não podiam ignorar a pequena consola branca que tanto lucro gerava. Títulos de grande qualidade como Zack & Wiki: Quest for BarbarosÚÄô, No More Heroes, Okami e Boom Blox foram lançados no primeiro semestre do ano para gáudio de muitos jogadores. Quanto à DS, Final Fantasy Crystal Chronicles: Ring of Fates, Final Fantasy Tactics A2: Grimoire of the Rift, Ninja Gaiden Dragon Sword, Soul Bubbles e The World Ends With You foram alguns dos jogos merecedores de maior destaque.

O ano prosseguiu e, em Julho, chegou a E3. Outrora a feira de jogos mais aguardada do ano, repleta de anúncios muito interessantes, esta edição marcou o ponto mais baixo da exposição. A Nintendo foi considerada uma das principais responsáveis pelo sucedido, tendo produzido, muito provavelmente, a mais consternadora conferência desde o famoso episódio da Sony em 2006 (,Riiiiiiiidge Racer!). Em vez dos habituais produtos dedicados aos jogadores mais ferrenhos, a Nintendo dedicou grande parte do seu discurso a um público universal, para tristeza da faixa hardcore. Wii Music, cuja demonstração teve uma reacção muito negativa junto da comunidade, foi o destaque da exibição Nintendo. Também anunciado foi Animal Crossing: LetÚÄôs go to the City, cuja única novidade aparente prendia-se com a modalidade online mais explorada e com recurso a um microfone de sala, o Wii Speak.
A comunidade ignorou os anúncios do exclusivo Grand Theft Auto: Chinatown Wars para DS e do periférico Wii MotionPlus, incluído no novíssimo Wii Sports Resort, que promete controlos mais precisos e realistas. Gerou-se um mini-fenómeno de histeria anti-Nintendo, amplificado pelo facto da produtora não ter exibido teasers dos novos Super Mario, Zelda e Pikmin, optando por anunciá-los oralmente. A informação relevante para o jogador, em qualquer dos casos, seria a mesma: novos Super Mario/Zelda/Pikmin estão a caminho. No entanto, a comunidade necessitava de uma qualquer gratificação visual que não foi correspondida pela gigante nipónica.
A Nintendo admitiu que a conferência não tinha sido feliz para os jogadores mais dedicados, realizando nova sessão em Outubro, com alguns dos destaques para os meses seguintes. Foram anunciados títulos como Another Code: R, Gateway of Memory, sequela para a Wii da conceituada aventura gráfica Another Code, Sin & Punishment 2, sequela do clássico shooter para a N64, Punch-Out!! Wii, nova versão do mítico jogo de boxe da NES, Blue Ocean 2, sequela da relaxante aventura marítima para Wii, Dynamic Slash, jogo de acção desenvolvido pela Sandlot, estúdio conhecido pela irreverência e inovação, e uma linha de antigos jogos GameCube com controlos refeitos a pensar na Wii, New Play Control!, que inclui êxitos como Metroid Prime 1 e 2, Pikmin 1 e 2 ou Chibi Robo.
Para manter a DS fresca e forte no seu quinto ano de mercado, a Big-N revelou um novo modelo, cujas maiores inovações consistem da sua dupla c¢mara fotográfica, gravador/leitor de música e conexão à internet facilitada, para permitir o rápido acesso à edição portátil do Shop Channel. Para acompanhar o lançamento ocidental da DSi em 2009, a companhia prognosticou uma série de títulos simples: Rhythm Heaven Gold, viciante jogo de ritmo, Mario and Luigi 3, terceiro RPG da série derivada e Pokémon Platinum, decorrente de Diamond e Pearl. A comunidade reagiu positivamente a esta conferência, embora muitos ainda não tivessem perdoado o anúncio de Wii Music.
O controverso jogo acabou por sair em Novembro e recebeu, quiçá, a mais diversa e estranha reacção de sempre por parte da imprensa especializada. Alguns adoraram o novo rebento da Nintendo, outros tantos detestaram-no e houve outros a não compreendê-lo. O que é certo é que ninguém ficou indiferente à sua chegada… pois esse destino estava entregue a outro título, Disaster: Day of Crisis. O projecto da Monolith Soft e publicado pela Nintendo saiu em Outubro na Europa, mas poucos foram os que o compraram e experimentaram.
Ainda no que à Wii diz respeito, o final do ano viu o lançamento de vários títulos third-party de qualidade bastante apreciável. Shaun White Snowboarding, Call of Duty: World at War, Sonic Unleashed, Star Wars: The Force Unleashed, Rayman Raving Rabbids TV Party, Guitar Hero World Tour, Lego Batman e a linha de jogos de desporto All-Play, da EA, juntaram-se a novas edições da Nintendo como Wario Land: The Shake Dimension, Animal Crossing: LetÚÄôs Go to the City e Trauma Center: New Blood para felicitar o Natal de todos os possuidores da Wii.

A DS teve uma época festiva menos apetrechada de novidades, mas mesmo assim muito confortável. A Square-Enix lançou Final Fantasy IV e Dragon Quest IV, remakes dos clássicos RPGs de gerações já idas; a Ubisoft apostou forte no jogador casual, com a sua linha Imagina e um Prince of Persia portátil pensado para todo o tipo de jogadores; a BioWare e a SEGA juntaram-se para trazer Sonic Chronicles: The Dark Brotherhood, primeiro RPG da licença Sonic the Hedgehog; a EA, para além de nos trazer os clássicos de desporto como FIFA 09, apostou também no prolífero género dos RPGs, com o original Spore Creatures e o irreverente Zubo; a Nintendo não esqueceu a sua portátil, editando Professor Layton and the Curious Village, produção da Level-5 que se tornou num dos títulos DS com sucesso mais imediato de sempre, e Fire Emblem Shadow Dragon, remake do primeiro Fire Emblem, para a NES.
O futuro adivinha-se risonho para a Nintendo e suas consolas. 2009 promete ser ainda mais rico em novidades do que 2008, com uma grande diversidade de jogos a estrear logo nos primeiros meses do ano. Mas esse é um tema para outro artigo…
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