Analisámos o Wii Music.

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Analisámos o Wii Music.

We Speak: Crises de meia idade

Bruno 28 de Junho de 2009

We Speak: Crises de meia idade

Se pensarmos que a primeira consola da Atari viu a luz ainda na década de 70, assombrosamente nos consciencializámos de que esta indústria já passou os 30 anos. Com a cada vez maior reivindicação de um certo estatuto cultural (seja lá de que tipo for), protagonizada por programadores e jornalistas da especialidade, é na fase em que a indústria se expande que as reacções mais conservadoras funcionam como barómetro para o grau de maturidade deste sector do entretenimento. Mais de 30 anos após a primeira consola e com uma Nintendo a regressar às origens deste sector, ainda há quem ignore completamente o consumidor e o desrespeite quando este questiona um serviço negligente.

Confesso que não leio a GamePro. Não tenho tempo para tudo e nunca me lembrei de perder alguns minutos por lá. A sua análise ao The Conduit, lançado esta semana no continente norte-americano, colocou o site na mira de muitos jogadores. Ou consumidores, como serão denominados a partir de agora e até ao fim deste artigo.

Há espaço para tudo nessa análise, desde criticar a Nintendo por criar uma consola que carece de um hardware “potente”, confessar não ter testado o multiplayer (que acaba por ser o modo principal deste tipo de jogo), provocar os fãs/leitores/consumidores de jogos( e informação) logo no início do texto, voltar a focar-se na crítica ao hardware da consola e destruir por completo o sistema de controlo, tornando-o num dos piores defeitos do jogo.

As incongruências lógicas e factuais do texto não seriam motivo suficiente para uma reflexão. (Afinal, após casos como o de Gerstmann e Gamespot, as análises passaram a ter menos importância para alguns leitores, que preferem procurar nos seus pares, através de fóruns de discussão, uma opinião que valide ou não a compra de um produto.) É a postura irresponsável de um jornalista profissional, recorrente no meio, que realmente me assombra.

Quase três anos volvidos, a Wii ainda é rejeitada por uma grande parte da indústria. Desde as piadas das avozinhas às metáforas fálicas, muitos se recusam a aceitar a consola como um artigo novo (e inovador) e descrevem-no como uma doença, um vírus, uma pastilha elástica. Não tem de existir uma legitimação do produto por parte destes senhores. Quem decide é o consumidor. Num cenário de eventual depressão e de assegurado envelhecimento da população, a Nintendo procurou desenvolver consolas que resistissem aos factores económicos e demográficos. A Nintendo DS e a Wii são respostas nesse sentido e aliciam até os mais resistentes a este tipo de entretenimento. E os jogadores tradicionais sentem-se ameaçados, temendo uma mudança de rumo concepção e produção de videojogos (que é inevitável), sem perceberem que o mercado caminhava para a insustentabilidade. Com jogos cada vez mais caros e com a perspectiva do custo disparar numa próxima “geração” de consolas, uma população jovem a decrescer, uma barreira de complexidade e estranheza entre jogadores e espectadores e a falta de meios para seduzir estes últimos a passarem para o outro lado, a indústria não poderia jamais crescer. A Nintendo DS e a Wii não poderiam ter chegado em melhor altura.

Controlar jogos através de movimentos é o futuro, é um facto. Dúvidas existissem e a Sony e Microsoft fizeram questão de as dissipar na última E3. Os focos de resistência mantêm-se e canalizam forças ora no ataque à Nintendo ora na ridicularização dos consumidores. Jornalistas e produtores de jogos, que vivem – ou deviam tentar viver – destes consumidores, são incapazes de encarar este cenário como uma verdadeira oportunidade. O consumidor é estúpido, joga qualquer porcaria, compra a Wii por ser uma moda, não investe demasiado tempo em jogos (ou seja, não passa 8 horas por dia com um comando tradicional a jogar FPS, a decapitar inimigos e a insultar adversários através de um headset). Tudo isto é facilmente desmontável, mas fica para uma próxima reflexão.

Como escreveu Thomas Kuhn, quando o paradigma vigente é refutado há sempre uma crise que pode originar uma revolução (recordam-se do nome de projecto da Wii?). Jornalistas e game designers, habituados a um determinado método e a esperar por determinados resultados provocados por estímulos previamente calculados junto dos consumidores, receiam os fenómenos emergentes que desconhecem e tratam-nos segundo as regras do paradigma em causa (o que ainda acontece com a estrutura das análises a jogos) ou através da hostilidade. Acreditar que a Wii fazia parte de outro campeonato estendeu a passarela à Nintendo, apesar da companhia anunciar desde o inicio o seu objectivo com a consola. Maior do que a crise provocada pelo agravar de custos, pela introdução de tecnologias que ninguém pediu mas que todos pagam e pelo recurso único aos gráficos e ao online para evoluir, é a crise de valores pessoais e sociais de indivíduos e comunidades de profissionais. É grave quando um jornalista como o da GamePro provoca e insulta os seus leitores (os ânimos exaltaram-se através do Twitter), esquivando-se a questões pertinentes como as que procuravam resposta para a falta de análise ao multiplayer ou para as contradições e inconsistências no discurso utilizado na análise ao The Conduit. Assistiu-se também a um gesto de solidariedade dentro da classe, com o apoio de um jornalista da Gamespot, ao clamar que a multiplicidade de opções para a configuração dos controlos não conseguia esconder o facto de que o par Wii Remote e Nunchuck são uma péssima opção para shooters na primeira pessoa.

É por isso que novas abordagens ao mercado da imprensa escrita são urgentes. A Smash! parece ser pioneira nesse sentido, pelo menos no jornalismo português. Dar voz aos leitores, não esconder críticas, aplicar novos critérios para análise, por muito discutíveis que sejam, e comunicar de forma pouco elitista. É certo que se foca no jogador tradicional e que ainda é cedo para avaliar o projecto, mas a forma como centra o leitor na revista é inequivocamente um exemplo para outras publicações.

E enquanto a indústria está em crise, famílias organizam festas em torno da Wii, oferecem um Brain Training à avó e muitas crianças experienciam Mario Kart Wii e Wii Sports, algumas das mais nostálgicas memórias de infância que terão em algumas décadas. E enquanto se discutem valores éticos e profissionais, o Rodrigo Dias anda a jogar MadWorld (que curiosamente aborda a decadência de valores vitais para uma sociedade), o Tiago Babo divide o seu tempo entre Wii Fit, Pokémon Pearl e acaba de me desafiar para um duelo online em Grand Slam Tennis (mais um passo certo rumo à consolidação de uma revolução, graças ao Wii MotionPlus), que me ocupa desde sexta-feira, e o António Vieira está de regresso ao Brawl, após limpar a lente da Wii (saibam como aqui).

Boa semana com bons jogos.

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5 Respostas

  1. edu_zelda disse:

    Amei o artigo. Realmente a Revolution marca… xD

    29/06/2009 às 23:25

  2. Diogo Stuart disse:

    Parabéns, gostei muito do artigo.

    30/06/2009 às 4:05

  3. andre disse:

    Adorei o artigo e a referencia a Khun

    2/07/2009 às 19:25

  4. Bruno disse:

    Obrigado. Também me deu um certo gozo escrever este texto.

    O Khun surgiu inesperadamente, enquanto reflectia (e escrevia) acerca de crises de paradigmas. E vi a referência como muito pertinente. Omg, um filósofo num post sobre videojogos! Fujam!

    3/07/2009 às 3:36

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  1. We Speak: Ventos de mudança | N-Portugal.com, Tudo sobre a Nintendo em Portugal 13/07/2009, 3:48

    [...] semana em que nos apetecia bater mais uma vez na incompetência de alguns jornalistas (mas por outros motivos), adiámos as lamentações para [...]

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