As adaptações de filmes para videojogos nunca foram famosas pela sua qualidade elevadíssima. Quase todas incorrem nos mesmos erros: ou tentam aproximar-se excessivamente aos filmes, ou afastam-se destes, ou são pura e simplesmente medíocres. A versão Wii de Harry Potter e o Príncipe Misterioso (Half-Blood Prince em inglês) tinha tudo para ultrapassar estes estigmas: tempo – pois afinal o filme foi adiado quase um ano -, dinheiro, uma plataforma que nasceu para este tipo de jogo, material de origem muito bom. Mas não o fez, e uma pergunta impõe-se: o que falhou?
Muita coisa. Prefiro, no entanto, começar por realçar os aspectos mais positivos: Hogwarts nunca pareceu tão bela, tão grande, tão cheia de vida – tão credível. Para um fã dos livros, como eu, ver a escola reproduzida com tanta fidelidade produz uma sensação de puro espanto. A banda-sonora, idêntica à do filme, é sublime, contribuindo para a criação do ambiente melancólico exigido pela obra de J.K. Rowling. E as secções em que temos de produzir poções, que requerem o aquecimento de potes, adição de ingredientes medonhos e agitação de mistelas, funcionam na perfeição, com um uso exemplar de controlos motores.
Tudo o resto em Half-Blood Prince é defeituoso. Não necessariamente mau, embora penda algumas vezes para esse campo, mas no mínimo maculado. Comecemos pela história – ou falta dela. Para garantir que detalhes do filme não saíssem a público, pois o jogo foi publicado semanas antes da estreia da película, a equipa da EA optou por abreviar ao máximo a narrativa desta adaptação. O resultado é algo que oscila entre o ridículo e o minimamente compreensível.
Ao longo da meia-dúzia de horas de aventura principal, que supostamente exploram o passado do arqui-vilão da saga, Lord Voldemort, seremos presenteados com autênticas pérolas de sabedoria, como “Essa memória poderá decidir o destino do nosso Mundo, Harry! Mas bem, sei que agora vais ter treino de Quidditch, por isso vai, não quero que chegues atrasado.” ou “O que é que o Malfoy andará a fazer? Ele anda a aparecer e desaparecer misteriosamente… é melhor ir para Poções!”. Quem não contactou com o livro e não tenciona ver o filme dificilmente compreenderá os motivos por detrás de tanta acção. Mesmo assim, este acaba por ser um problema menor, se tivermos em conta a dimensão da licença (cujos livros até fazem parte do Plano Nacional de Leitura).





Comentar?