Olhando para os jogos desta geração, constato algo: quase todos são lembrados exclusivamente pelo seu conceito ou inovação. Gears of War escondeu-se por detrás do seu sistema de cover extremamente afinado. Super Mario Galaxy atraiu-nos com a sua gravidade. Little Big Planet deixou-nos fazer os nossos próprios níveis. É certo que também houve jogos como Metal Gear Solid 4, BioShock e Assassin’s Creed. Mas por cada uma destas apostas com uma história marcante, temos um Left 4 Dead ou um Boom Blox, em que o enredo é um extra para embelezar o pacote. Nem os RPGs lançados até ao momento têm feito muito para colmatar este aspecto. Não que isto seja particularmente mau – mas contar boas histórias nunca fez mal a ninguém. O remake de Final Fantasy IV, exclusivo para a Nintendo DS, dá uma lição a muito bom jogo que por aí anda: dezoito anos depois, a trama concebida por Hironobu Sakaguchi e Takashi Tokita mantém uma qualidade impressionante. Terá o resto da obra envelhecido tão bem?
Cecil, herói de Final Fantasy IV, é um cavaleiro negro que serve o reino de Baron como capitão dos Red Wings, uma espécie de Força Aérea medieval que, em vez de se servir de aviões, dispõe de poderosas airships. Seguindo as ordens do soberano, Cecil e o seu melhor amigo, Kain atacam a indefesa vila de Mysidia com o intuito de obter o cristal de Água, um de quatro místicos e poderosos cristais. No entanto, o protagonista questiona-se sobre a moralidade das acções do seu rei e mentor, cedo passando a opor-se às suas decisões militares, e uma premissa aparentemente simples e cliché (cristais, vilas indefesas, reis tiranos…) acaba por adquirir contornos épicos e originais, abordando temáticas como a traição, a guerra e o amor de uma maneira nunca cansativa e não raras vezes surpreendente. Partes do argumento original não aproveitadas há dezoito anos foram implementadas neste remake, pelo que a narrativa está ainda mais coesa. As personagens também ganham nova vida com o voice-acting de boa qualidade apresentado nas sequências de história mais importantes – acompanhadas pela belíssima e já clássica banda-sonora de Nobuo Uematsu.
Igualmente clássico é o sistema de combates. Afinal de contas, esta é uma componente essencial num RPG – tipo de jogo que vive da deambulação de cidade em cidade e masmorra em masmorra, da derrota de um lacaio seguida do confronto face a um boss – e foi Final Fantasy IV a introduzir o sistema ATB (Active Time Battle), no qual todas as personagens em batalha têm uma barra de tempo que, quando completamente cheia, permite a escolha de uma acção a executar. Algumas acções são levadas a cabo imediatamente – como ataques simples. Já as magias e convocação de criaturas mágicas requerem o preenchimento de outra barra de tempo. Este é um sistema equilibrado e desafiante, que pede ao jogador paciência, reflexos e rápida capacidade de decisão. O factor estratégia passa também pela profissionalização das personagens. Cada uma tem o seu mester, que não pode ser alterado: Cecil é um cavaleiro negro, Kain é um dragão, Rydia serve-se da Magia Negra e da convocação de criaturas mágicas e Rosa usa Magia Branca, por exemplo. O sistema de habilidades, esse foi alterado para permitir uma maior personalização.
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