Os seres humanos do sexo masculino que têm como hobby principal os jogos de vídeo (vulgo gamers, embora eu tenha aversão a essa palavra), têm tendência a pertencer a um de dois moldes físicos. De um lado, estão aqueles cujo metabolismo os leva a assumir uma figura permanentemente esguia, conhecidos cientificamente como ectomórficos. Para esses, não interessa a quantidade de batata frita e chocolates que metem para dentro: apesar de poderem reduzir a sua saúde a cacos com tais iguarias, simplesmente não conseguem ganhar peso. Isto pode ser motivo de inveja para muitas mulheres, mas para um homem, a ausência de material entre a pele e os ossos pode constituir alvo de chacota, e definitivamente não tem muita graça.
Do outro lado, estão os pouco afortunados que não conseguem gastar as calorias ao mesmo ritmo que as consomem, e que por isso vêm elas acumular-se progressivamente sob a forma de gordura, adquirindo ao longo dos anos uma figura cada vez mais redondinha. Com isto gera-se um ciclo vicioso: quanto mais pesado o corpo, mais difícil se torna mexê-lo para gastar calorias, e mais depressa os quilos se acumulam.
Por outras palavras: há lingrinhas, e há balofos. Também há os raros sacanas sortudos que conseguem manter algum equilíbrio, mas este texto não é para eles. Vão-se embora, engatar umas gajas ou coisa assim.
O meu caso em particular pertence ao segundo grupo: eu tenho tendência a ganhar peso, e na minha vida quotidiana dos últimos anos, não tenho tido oportunidade de ajustar o meu nível de actividade e o meu consumo de alimentos de forma a travar esta tendência. Tentem ter um filho, para verem como é: vão ver como todas as vossas prioridades se viram logo de pernas para o ar, e o vosso peso se torna a última das vossas preocupações.
Bem, já lá vão três anos desde que isso aconteceu, e deixei de poder ignorar o meu perímetro crescente. Nem tenho uma balança que funcione, mas sei que recentemente atingi o meu recorde de peso, só de me olhar no espelho. Estava na altura de meter um travão a esta tendência, e felizmente, tendo tido experiência prévia neste tipo de situações, eu sabia precisamente o que fazer.
Comecei… o plano.
Na realidade, eu e as pessoas que, como eu, são endomórficas, temos alguma vantagem na demanda de atingir a figura ambicionada em relação aos lingrinhas. À custa de carregarmos toda esta gordura de um lado para o outro 24 horas por dia, desenvolvemos naturalmente uma musculatura respeitável. Agora só basta rapar tudo o que há por cima dela, e o Adónis dentro de cada um de vocês está pronto a sair!
Como sou tão fofinho e adorável, desta vez, decidi partilhar o plano convosco, que estão na mesma situação que eu. Podem tentar ignorar o problema o quanto quiserem, mas a barriga não se vai embora sozinha. O que vocês precisam é de uma boa olhada no espelho, um tabefe nas fuças e alguma motivação. Pensem nisto: acham que alguma mulher olharia para vocês duas vezes em qualquer circunstância? Querem morrer sozinhos? Bem me pareceu. Agora prestem atenção. Atenção ao plano.
Ganhar e perder peso é uma questão de matemática, como devem saber. Sempre que comemos ou bebemos qualquer coisa (excepto água), consumimos calorias que contribuem para ganhar peso. Por outro lado, todas as nossas actividades gastam essas calorias (umas mais, outras menos), contribuindo para perdermos peso. A diferença entre calorias consumidas e gastas ao longo de um período de tempo, ou seja, o saldo, é que determina se ganhamos ou perdemos peso. Na essência, é tão simples como isto: um quilo de gordura são cerca de 9000 calorias, pelo que para perder 1 quilo de peso, precisamos de ter um saldo negativo equivalente em calorias.
O plano tem duas componentes: por um lado, controlar o que se come (regime alimentar). Por outro lado, controlar as nossas actividades (exercício). Devem também ter um objectivo definido inicialmente, estabelecido sob a forma de um número: o vosso peso-alvo – sem exageros, claro está. Não percam vista desse objectivo, e dar-se-ão bem.
Vejamos primeiro o lado do exercício, pois é o mais relevante para o tema deste site, e tenho a impressão de que já há bastante gente a perguntar o que tem isto a ver com jogos. Tenham calma. Como é que alguém que está habituado a olhar para um ecrã durante horas seguidas pode ser persuadido a realizar, com regularidade, uma actividade física razoavelmente intensa, de forma a constituir um factor relevante no plano?
Como homem e jogador, sou uma pessoa guiada por objectivos – e de preferência, objectivos de curto prazo. Vale-me de pouco saber que daqui a X meses vou ser elegante e pesar menos Y quilos, se para o fazer, tenho que passar por horas e horas de tédio desesperante correndo em cima de uma passadeira que não vai dar a lugar nenhum, ou levantando pesos que definitivamente não estavam a pedir para ser levantados. É claro que há sempre maneira de tornar estas tarefas interessantes, mas porquê dar-nos ao trabalho quando podemos aliar o útil ao agradável e transformar um vídeojogo na componente de exercício do plano? Se vocês estão a ler isto, o mais provável é terem uma Wii, raios partam – vocês são os especialistas em mexerem-se enquanto jogam. Simplesmente levem isso um passo mais longe.
Têm Wii Fit. Têm EA Sports Active. Têm Dancing Stage Hottest Party. É escolher e pegar. Qualquer um destes títulos tem potencial para vos ajudar na vossa tarefa de exercício videojogável, na qual devem ter em atenção três pontos:
- Devem jogar durante pelo menos 30 minutos, sem interrupções, e mantendo tanto quanto possível um ritmo constante. Se aguentarem mais tempo, tanto melhor.
- No fim da vossa sessão de jogo, devem sentir cansaço físico e estar a suar intensamente. Não se esqueçam de tomar banho a seguir, por tudo o que há de sagrado!
- Devem fazer isto todos os dias. Sem excepção, à excepção de ocorrência de lesão ou doença. Se não tiverem tempo durante o dia, façam à noite. Antes de jantar é um boa altura para exercício.
De resto, os jogos em causa têm mais que suficientes objectivos para vos manter entretidos enquanto queimam essas calorias em excesso e se aproximam lentamente do vosso objectivo. É natural que no início não se consiga manter um ritmo de actividade elevado, por isso não convém abusar nos primeiros dias: o essencial é estar cansado e suar no fim da sessão de jogo. À medida que se forem habituando ao ritmo, podem ajustar o vosso esforço com desafios mais difíceis, de forma a manter o nível de suor e cansaço no fim das vossas sessões.
A minha droga de escolha? Stepmania, um clone de Dance Dance Revolution disponível gratuitamente para PC, e infinitamente personalizável de forma a poderem usar as vossas músicas preferidas entre os milhares disponíveis na Internet, com níveis de dificuldade variáveis.
Agora que já sabem como gastar mais, basta explicar como consumir menos. Isto é o mais complicado para a maior parte das pessoas, mas acreditem que o mais importante de tudo é ter força de vontade e não cometer excessos. Existem dietas suficientes no mundo para encher várias bibliotecas, e cada pessoa terá uma que funcionará melhor para ela. Porém, penso que não estarei a espantar ninguém ao citar os seguintes pontos que deviam ser seguidos por qualquer pessoa em dieta:
- Os doces, chocolates, bolachas, bebidas açucaradas ou alcoólicas, snacks fritos e afins, foram todos de férias. TODOS. Só voltam quando atingirem o vosso objectivo. Não esperem postais. Só as pastilhas elásticas sem açúcar é que ficaram para vos fazer companhia, por isso, aproveitem.
- Quando não se está de dieta, é pateta substituir alimentos por versões light, pois a diferença calórica não é muito significativa nessas circunstâncias. Mas no contexto de uma dieta hipocalórica, a coisa muda de cena: como se consomem menos calorias, o impacto das diferenças entre alimentos normais e light é mais relevante. Se puderem, escolham versões dos alimentos com menos gordura e menos açúcar adicionado.
- A única coisa que consomem fora das refeições é água. Muita água. Engana a fome e compensa a desidratação causada pelo exercício e pela ausência das porcarias que vocês costumam comer em circunstâncias normais. Não se preocupem com a “retenção de líquidos”: vocês não querem ficar secos, mas sim magros.
- Definam uma rotina alimentar (que pode, não obstante, ter alguma variedade) e mantenham-na. Não inventem, porque isso leva quase invariavelmente a deslizes indesejáveis.
- Há sempre festas, ocasiões especiais e afins que podem facilmente descarrilar uma boa dieta. Não vos vou dizer para evitarem essas situações a todo o custo – eu certamente não o faço – mas, se acontecerem, deverão meter a dieta num time-out com duração pré-estabelecida e bem definida. Durante esse período, podem esquecer a vossa dieta, mas sem cometer abusos desmesurados. Uma vez acabado o “intervalo”, deverão voltar ao vosso programa regular.
Dito isto, aqui está a minha própria rotina alimentar, que não recomendo a ninguém, já que ninguém é igual a mim, mas somente para servir como exemplo:
- Pequeno-almoço: uma fatia de pão com doce de frutas sem açúcar adicionado, e um copo de leite.
- Almoço: “normal”, sem restrições, mas procurando pratos sem muita gordura. Para beber, só água ou sumo de fruta 100%.
- Lanche: uma peça de fruta.
- Jantar: um iogurte natural ou uma fatia de pão com queijo fresco, mais uma peça de fruta.
Não é tão difícil como parece, e o almoço livre dá-me uma sensação de liberdade que ajuda muito a manter a rotina.
E é assim o plano. O que podem vocês esperar dele? Em média, 1 quilo de peso perdido por semana, se fizerem tudo correctamente e sem desvios – e eventualmente, o atingir do vosso tão almejado objectivo. O vosso destino está nas vossas mãos, tal herói do vosso JRPG favorito.
É um jogo difícil, mas os resultados estão lá para ver. Só não esperem créditos finais quando acabarem: o único responsável por este “jogo”, são vocês próprios.
Gostei muito do teu artigo, e ri-me bastante com algumas partes. xD
Achei também inspirador, visto eu pertencer à segunda categoria, por isso decidi que vou começar por seguir as tuas instruções e criar uma rubrica que relatará semanalmente essa experiência.
Vou iniciar o plano de dar uso à minha Wii, pondo em prática a teoria apresentada por ti, documentando-a por escrito e com fotos.
Penso que vai ser difícil, mas estou confiante de que estou pronto para o desafio.
Obrigado por esta simples e interessante leitura.
18/07/2009 às 19:00